Tem um princípio das Escrituras, uma prática, que, hoje, se faz
esquecida na vida cristã de muitos: É a prática da prestação de contas, do
confessar pecados.
Pela nossa tradição evangélica brasileira, muitos,
talvez, inconscientemente, não valorizam tal postura por achar que isso é uma
prática católica e que não se deve confessar pecados a ninguém, exceto a Deus,
pois somente Ele é perdoador de pecados - certamente, somente Deus perdoa
pecados (Lc 5.21; 1 Jo 1.9-10; e vários outros).
Contudo, vemos exortações e mandamentos como do apóstolo
Tiago: "Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns
pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e
eficaz".
O prestar contas faz com que nós desnudemos a alma,
abaixemos a guarda e exponhamos o monstro que habita em nós. Faz com que
levemos nossos irmãos em Cristo aos cômodos da casa que nunca, "pela lei
da boa vizinhança e da visita", levaríamos um visitante ou hóspede.
Oh, mas quão refrigerador é poder confessar pecados
àqueles que compartilham de mesma fraqueza, ou que um dia já trilharam por tal
luta e podem ser, com consolo e ação de Deus, usados para nos guiar nos vales.
Adverte-nos o autor de Eclesiastes:
"É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa
do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se.
Mas pobre do homem que cai e não tem quem o ajude a levantar-se! E se dois
dormirem juntos, vão manter-se aquecidos. Como, porém, manter-se aquecido
sozinho? Um homem sozinho pode ser vencido, mas dois conseguem defender-se. Um
cordão de três dobras não se rompe com facilidade" (Ec 4.9-11).
Como poderemos ser suporte um dos outros (Cl 3.13a:
"Suportem-se uns aos outros...") se não soubermos ou expormos àquele
que nos suportará o tamanho do fardo ser levado juntos.
Prestar contas faz com que nos abramos para a repreensão,
consolação, exortação, amparo do Senhor por meio de irmãos em Cristo. Abre o
livro que é guardado a sete chaves, no fundo da prateleira mais antiga, cheia
de poeira e não ler-se-o sozinho mais, ao contrário, agora acompanhado,
mostrando os borrões e marcas de café derramado sobre o livro. Abrimos para que
outros opinem e mudem as frases.
Mas, é claro, isso não deve ser feito com qualquer um.
Não é qualquer pessoa ou a todos que se deve abrir a alma. Tal ação é profunda
demais para qualquer pessoa sem sabedoria e temor ao Senhor. Então,
primeiramente, deve ser alguém que teme ao Senhor e o ama. Depois, alguém de
notória maturidade espiritual e conhecimento das Escrituras, para que assim
possa-se orientar corretamente, respaldado no verdadeiro e único manual de
concerto. Alguém de confiança.
Infelizmente, muitas vezes, a cultura secularizada influencia
mais aqueles que se autodenominam cristãos do que as próprias Escrituras (que é
o manual de fé e prática dos reconciliados com Deus). E, nessa conjectura,
temos uma cultura altamente individualista, na qual: "ninguém mete o
bedelho em minha vida", "não devo nada a ninguém", "quem é
você para dizer o que eu devo fazer?", "você não é melhor que eu e
nem meu pastor"... e por ai vai os retruques infantis e insensatos. Tal
mentalidade, diabólica, afasta-nos de piedosa prática.
Enfim, busquemos tal prática para que nossas vidas sejam
conhecidas pelos irmãos de alma; para que Deus aja por meio de irmãos. Pecado
escondido é pecado alimentado e bem cuidado. Tenho visto e vivido muito
libertação na prática da confissão horizontal e na prestação de contas. Isso é
Bíblico.
Christopher Vicente






